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Incongruências Arquitetônicas 26/01/2013

Posted by leilakalomi in Miscelânea.
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Sou arquiteta. Quer dizer, pelo menos fui durante um tempo. Tenho até diploma e pago ou melhor, pagava o CREA/RJ, já que me expulsaram para um tal CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Porém, neste ano da graça de 2013 completam-se 20 anos que deixei de exercer a minha profissão original. Mas, sabe como é, sempre fica um resquício no sangue e às vezes, esse sangue ferve de raiva com o descaso com que a cidade dita Maravilhosa é tratada por seus dignatários e habitantes. Há certas coisas que realmente não entendo.

Como diria a preclara Homônima, o carioca é como aquela mulher super gatinha que se veste na última moda, pinta as unhas e os cabelos, está sempre maquiada mas,… não toma banho. E se olharmos atentamente para esta cidade, é exatamente assim que ela é: super bem produzida, mas que cheira mal.

Não consigo entender a relação de amor e ódio que o carioca tem com a sua cidade. Apregoa aos quatro cantos que ama a cidade, mas joga lixo no chão, cospe na escada rolante do metrô (fui testemunha!), depreda o que for possível; em suma, trata a cidade como se ela fosse uma qualquer, não a cidade onde mora.

Também não consigo entender a total incapacidade que o carioca tem de fazer uma calçada lisa. E também não entendo esse amor pelas pedras portuguesas. Gente, pedra portuguesa é para ser assentada por profissionais capacitados chamados calceteiros! Há alguns anos alguns funcionários da Prefeitura foram fazer uma especialização em Portugal, onde as calçadas são maravilhosas, lisinhas e sem buracos. Onde foram parar esses profissionais? Aqui, qualquer um faz uma calçada de pedra portuguesa. Resultado: buracos, desníveis, pedras soltas. Na rua transversal da de onde moro construíram um prédio. Até aí, nada de mais. Imagine o que colocaram na calçada em frente? Isso mesmo, pedras portuguesas! Pois fizeram a calçada que, de original já não ficou lá essas coisas, antes de terminarem a obra. Claro que as coitadas das pedras não resistiram ao peso dos caminhões. E lá foi um curioso remendar o que já não estava bom. Pois bem, o prédio está novinho, ainda não foi ocupado e a calçada já está remendada e com um monte de pedras desniveladas, ótimo para idoso cair e quebrar carrinho de bebê. Que mal há em uma velha e boa calçada de cimento? Já tentou andar nessas calçadas desniveladas e cheias de buraco com salto alto? Bem, poderiam achar que é frescura de mulherzinha, mas andar nessa corrida de obstáculos é péssimo também com sandália baixa. Machuca a sola do pé. Resultado, sempre que tenho que fazer uma caminhada mais longa, vou de tênis. A escolha do calçado deveria ser pelo conforto ou indicado para corrida ou caminhada, mas é para não machucar os pés. Tem alguma coisa errada nessa relação cidade/habitante.

Na esquina da rua onde moro existe um casarão abandonado. O bairro é antigo e possui muitas casas com algum valor histórico. Até aí, tudo bom, tudo bem. Só que o casarão está em ruínas. O proprietário quer demolir o segundo andar (o interior já desabou, só resta a fachada), mas acontece que o dito imóvel é apacado. Quer dizer, faz parte da APAC, que a prefeitura acha que tem algum valor cultural. E o que foi que a prefeitura fez? Há alguns anos, fez uma obra de sustentação da fachada. Só que a obra acabou com qualquer traço original que o casarão possuía. Foi risível, para não dizer constrangedor, ver a Prefeitura do Rio de Janeiro gastar uma grana preta – meu rico e suado dinheirinho – para estabilizar uma fachada que não tem mais nada do que originou o apacamento. Hoje a obra está aos frangalhos. O madeiramento usado para escorar está podre, caindo aos pedaços. O máximo que já se fez foi a Defesa Civil colocar uma faixa interditando o local. Como a calçada alí é estreita, logicamente a faixa já foi retirada há tempos. E ficamos assim: nem o proprietário pode fazer uma reforma, nem a Prefeitura, que disvirtuou a fachada original toma qualquer atitude. Imagino que, como sempre, somente quando começarem a cair as paredes e ferir algum passante é que vão fazer alguma coisa. Mas o que estou esperando? Eu moro no Brasil, país do deixa-acontecer-depois-a-gente-dá-uma-ajeitada.

botafogopredioabandonado

 

Atravessando a rua, fica o Palacete dos Lineu de Paula Machado, recentemente comprado pela FIRJAN que é muito bonito mas, parafraseando Nelson Rodrigues, é “bonitinho por dentro e ordinário por fora”. Em 2011, o palacete foi palco do evento Casa Cor. “Oba!”, pensei com os meus botões. “Finalmente vão limpar os muros do terreno.” Ledo engano. O evento aconteceu, aporrinhou todo mundo fechando a rua para virar estacionamento e o muros continuam feios, cheios de pichações. Até hoje. Gozado, quando era estudante de arquitetura, aprendi que um projeto de arquitetura vai além do projeto em si, mas também é de responsabilidade do arquiteto todo o entorno. E no Casa Cor teve um monte de arquitetos, paisagistas e decoradores trabalhando lá. Será que ninguém pensou naqueles muros horrorosos? Mas o que eu sei? Sou apenas uma humilde cidadã incomodada com a sujeira da cidade.

palacete-O-Globo

 

Há mais de um ano passo duas vezes por semana na Praça General Osório, em Ipanema. E há mais de um ano vejo que o elevador para deficientes da estação General Osório do metrô está cercado por tapumes. Haviam colocado um aviso de que estava “em manutenção”. Só que agora assumiram: tiraram o aviso. O elevador está quebrado e quebrado irá ficar. E quem precisa? E os cadeirantes, que também são cidadãos que pagam impostos, como vão descer até quase os quintos dos infernos que é aquela estação? E quem, por algum motivo, não pode subir as escadas? Sim, porque é uma loteria saber se as escadas rolantes estão funcionando ou não. Desrespeito com o cidadão já é tão comum, tão banal, que ninguém mais se importa.

Falando em metrô, pelo menos chegaram alguns novos trens. Concordo que têm mais espaço – em pé, claro – e que tem um super ar condicionado para esses dias de calor tipo filial do inferno, mas me chamou a atenção umas alças colocadas nas barras de cima para facilitar que pessoas baixinhas – EU!!! – possam se segurar. Pois fiquei pensando cá com os meus botões: “no carnaval essas alças vão dançar!” Quem não frequenta o metrô no carnaval não sabe o que é depredação. Parece que as pessoas enlouquecem e saem depredando tudo! Até os vidros das composições são quebrados, não me perguntem como. Ah, não vai sobrar uma! Civilidade é isso aí! A verdadeira Hora Rubra (quem é trekker sabe do que estou falando).

Já está mais do que na hora, segundo minha humilde opinião, de a Prefeitura assumir que o carioca é um porco e passar a chamá-lo assim. É urgente uma campanha chamando o carioca pelo o que ele é: um porco. Também é responsabilidade das autoridades dar um pouco de educação aos seus concidadãos, já que nem a escola ou os pais estão cumprindo este dever.

Falando es escola, prometo que é a minha última rabugice: na Rua Sorocaba tem uma escola pública – Escola México – e ao lado, tem um local de reciclagem de lixo. Nunca passei em frente ao Colégio sem ter que desviar da sujeira deixada pelos catadores e outras pessoas em geral. Já vi de tudo na porta da escola: lixo, lixo mesmo, caco de vidro, restos de obras, carrinhos dos catadores, catadores, digamos, intoxicados, o diabo a quatro. Como uma criança que vê lixo na porta da sua escola vai cuidar de não sujar a sua cidade? Como podemos falar de uma vida melhor, se tudo o que elas veem é lixo e porcaria? Está mais do que na hora de tomarmos uma atitude.

Mas o que eu sei? Sou apenas uma ex-arquiteta cidadã que vê o que as “otoridades” não veem.

E chega porque a depressão tá braba hoje.

Ah, as fotos são do jornal “O Globo”.

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