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Gilberto Scofield – Pesadelos de um Dia de Verão 11/01/2014

Posted by leilakalomi in Miscelânea.
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Publicado no jornal O Globo de hoje, 11 de janeiro de 2014.

Este é o retrato verdadeiro da dita “Cidade Maravilhosa”. Maravilhosa pra quem, cara pálida? Pra mim é que não é.

 Gilberto Scofield Jr. gils@oglobo.com.br

Pesadelos de um dia de verão

Inacreditável falta de preparo e senso de antecedência de autoridades públicas e empresas privadas fazem este verão parecer abominável

Filas para subir o Corcovado já é uma das marcas deste verão Foto: Marcos Tristão / Agência O Globo (02/01/2014)
Filas para subir o Corcovado já é uma das marcas deste verão Marcos Tristão / Agência O Globo (02/01/2014)

Ah, o verão. Especialmente nos trópicos do Hemisfério Sul, onde o verão hospeda o réveillon — e suas promessas para o ano que se inicia, um horizonte que parece acenar com novas oportunidades —, a época é de praia, calor, corpos desnudos, férias, cerveja gelada, uma estação de bem com a vida, apesar da canícula. O verão é a estação que praticamente define o Rio. O Rio, fora do verão, não existe.

Mas há verões e verões. E este, particularmente, tem sido uma das estações mais bizarras. E eu não me refiro ao já insuportável trânsito, piorado um milhão de vezes por conta das obras que tentam melhorar os engarrafamentos dos quais se reclama. Não. Essa é queixa antiga. Tampouco me refiro ao calor que, a cada ano, parece ser o “maior dos últimos dez anos”. Imagina. Temperatura de 19 graus no Rio já é razão suficiente para o carioca tirar casaco de couro do armário. E as chuvas? Tem coisa mais previsível do que as tempestades que castigam o Rio verão sim, outro também? Só me causam mais bocejos do que o mar de turistas que invade a cidade.

E no entanto, se nada é novidade, por que este verão parece tão abominável? Pela inacreditável falta de preparo e senso de antecedência de autoridades públicas e empresas privadas para lidar com a mais emblemática das estações numa cidade que praticamente vive dela. Os absurdos se sobrepõem de uma maneira perturbadora. Vai dos já manjados arrastões nas praias ao ridículo acionamento de sprinklers no Shopping Leblon por causa do calor. Das manchas e espumas que deixam as praias com cheiro e aparência horrorosos a falhas no bondinho do Corcovado que prendem turistas durante horas nas composições. Da falta de táxis nas ruas aos alagamentos provocados por rios assoreados ou redes de águas pluviais sem manutenção, ao mais leve dos chuviscos. Dos preços absurdos onde quer que se vá na cidade à clara falta de pessoal para atendimento ao público em restaurantes, bares, clínicas, hospitais e locais turísticos da cidade. De filas gigantes para o Pão de Açúcar à falta de policiamento que resulta num sem-número de roubos, furtos e violências diversas pela cidade. Do nível indigente de nossos aeroportos aos apagões e à falta de água em vários bairros. Você escolhe a mazela.

Apesar de reunir dois milhões de pessoas, o réveillon em Copacabana transcorreu sem maiores problemas que não a eterna dificuldade de se sair do bairro depois dos fogos. Até entendo. Em qualquer evento desse porte, há dificuldades de mobilidade. Provavelmente, turistas e cariocas voltaram para casa encantados com a festa, mas nada disso fica. Porque o encantamento da família carioca com os fogos é dizimado no fim de semana seguinte, quando a família foge horrorizada da praia, acuada por 20 marginais. Porque a felicidade de uma família argentina registrada em fotos de roupas de banho postadas no Instagram nas férias no Rio é triturada quando a filha despenca num vão de escada rolante de um Galeão que mais parece um episódio de “American Horror Story”.

Alguns leitores escreveram para o jornal criticando a reportagem publicada ontem sobre os suplícios de verão, enxergando ali uma “campanha contra o Rio”. O Rio não precisa de campanha de difamação. A falta de preparo de empresas e governos no trato com a cidade cuida disso. Querem um exemplo sobre o desleixo na cidade? Vejam o relato — resumido — do leitor Renato Mello sobre sua saga para comprar um sorvete para a filha no Leblon:

“No sábado, Bibi, minha filha de 5 anos, pediu para tomar uma casquinha de morango. Eram 10h. Morador do Leblon, entrei na La Basque e perguntei: “vocês tem sorvete de morango?” De forma ríspida, ouvi a resposta: “Tem que comprar a ficha primeiro”. Bem, como não foi a pergunta que fiz e pela resposta grosseira, saí da loja. Passei pela Vecchi, nova sorveteria da moda. Eram umas 10h20m e estava fechada. O sol estava a pino e nós suávamos descomunalmente. Caminho em direção à Sorveteria Itália. Fechada.

“Àquela altura, minha filha já se contentava com um mero picolé. Fui para a Padaria Rio-Lisboa. Bem em frente à geladeira do sorvetes colocaram uma mesa, onde uma família tomava café. Fiquei sem graça de pedir licença para chegar à geladeira. Fui ao caixa e pedi se poderiam fazer isso. A caixa, antes de responder, pegou o dinheiro da minha mão e mandou eu abrir a geladeira e pegar. Pedi que algum funcionário pegasse para mim, mas não havia funcionário disponível. Pedi meu dinheiro de volta.

“Seguia pelas ruas do Leblon com Bibi, ambos pingando, ela chorando pelo sorvete. Como já eram 11h, achei que finalmente a Itália e a Vecchi já estavam abertas. Ledo engano. Pego o rumo de casa, entro na minha rua e, tal como uma miragem, vejo uma carrocinha da Kibon parada em frente à minha portaria. Eu e Bibi, emocionados, nos abraçamos tal como dois fugitivos no Saara, suplicando por água. Era o fim do nosso suplício.”

 

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Primeiro Post do Ano 01/01/2013

Posted by leilakalomi in Miscelânea.
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Um feliz 2013 para todos, mesmo com um calor dos diabos que o verão carioca está nos brindando. E vamo que vamo!!!!

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